quarta-feira, 24 de junho de 2009

Pseudosinestesia

Quero beber a eternidade em um copo de cristal
que se partirá em minhas mãos
desfazendo-se em milhares de cacos
cortantes.
O sangue que escorrer das minhas feridas profundas
eu o beberei também,
sorverei com a sede de sete dias
o sangue de aço sabor ferrugem.
Quero beber a claridade do dia,
esta que vem descendo deslizantemente
como lâmina.
Ela atravessará meu corpo ao meio
partindo-me em duas metades gêmeas,
condizentes. A luz é dura.
Quero beber a noite, as nuvens negras,
ser engolfada pela escuridão
e beber até a embriaguez, até o afogamento
em mim mesma. No universo.
E quando eu finalmente puder
beber da açucarada calda de um cometa,
serei arrastada para fora do planeta
e beberei diretamente do sol.

terça-feira, 31 de março de 2009

Lagridor

A dor cresce,
aperta-me o estômago
e fere os pulmões,
sufocando-me covardemente.
Sobe à garganta,
as paredes se contraem
forte e maldosamente.
Engasgo
com o pouco de saliva restante
em minha boca
ressequida.
A dor faz com que
meu rosto inteiro queime,
como se por baixo da pele existisse
fina camada incandescente.
Minha cabeça cresce como se
necessitasse explodir,
como se a testa estivesse a ponto de
ser arremessada a metros,
muitos metros de distância.
- As têmporas latejam
lamentavelmente -
A dor é senhora de mim,
habita o fundo dos meus olhos
que agora ardem desmedidamente
e então ela brota,
flui através deles,
pesada,
salgada,
escorre morna pela minha face
e retorna ao meu corpo
me afogando.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Poeira de Estrelas

Em uma trilha tortuosa,
caminho sobre folhas secas:
Os estalos de seus talos
ressequidos
vibram em minhas artérias.
O amarelo brilhante do sol
a pino
desvia-se dos galhos
multicoloridos das árvores,
resvala-se no vento
(Luta entre luz e som)
e ataca sutilmente
meu rosto frágil.
Luz dourada e portadora
de gotículas de poeira,
me atinge, me aquece
e brilho com ela.
E sou tão colorida
quanto as árvores.


***

Em uma trilha tortuosa,
respirando devagar para
não assustar as borboletas.
Que volteiam delicadamente
ao meu redor,
com suas asinhas de
papel de seda.
Os barulhos que me amedrontam
São os mesmos que me
impelem.
Sempre em frente,
mais a fundo,
afundo na trilha. Nas folhas.
Na secura.


***

Em uma trilha
tortuosíssima,
sinto o cheiro de terra,
a poeira marrom me cobre
de uma camada fina.
Tenho a idade das esfinges,
coberta de pó.

(De cobre)
Coberta de nada.
Eu mergulho da terra da trilha,
mergulho em mim.
Sou a terra, o mergulho,
sou a trilha, sou eu.
Submerjo, embrenho-me
na trilha-eu,
na poeira castanha,
com meus cabelos castanhos.


***

Em minha trilha
quando chove, venta.
Raios oblíquos
arrebentam-se no céu
mas não os vejo.
Apenas posso adivinhá-los
por sobre as copas das árvores,
através dos espaços
entre as folhas úmidas.
Não temo as tempestades,
visto que trovejo
e choro
e molho.
Só tenho medo
do assovio do vento
que circula o mundo e vem
bater de encontro à minha nuca.


***

E nas noites de céu limpo,
em minha trilha
sem nuvens,
esforço-me para enxergar
a purpurina lá em cima.
Pontos brilhantes que
lembram
gotas d'água,
água de orvalho.
Quero bebê-las,
desejo bebê-las todas,
essas gotas de estrelas,
esses pontos líquidos,
fixos no infinito.
Sorvê-las em uma taça
reluzente de cristal cor-de-rosa.
Sim, o que almejo
é beber estrelas.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Cuidado!

Não.
Não posso mais.
Juro que não suporto
essa metafísica das palavras.
Tudo o que quero
é a Leveza.
Desejo tocar a Suavidade
com os lábios,
ser engolida por um céu
azul claro
que torna desta cor
tudo o que toca.
E então eu seria composta
da mesma cor que esse
céu engolidor, e as árvores
tornariam-se da mesma tonalidade
que eu e o sol seria azul claro
juntamente com o chão.

Não.
Não posso mais.
Juro que não suporto
o peso dessa indeglutível angústia.
Sensação que trava a garganta,
deixa os olhos
enevoados,
aperta meu peito e dificulta
a respiração.
Eu só quero a luz.
Uma Luminosidade que
me faça levitar,
adentre em mim através
dos ouvidos com a
impetuosidade de quem
já é dono
e ilumine minha nuca.
E meus cabelos serão puro brilho.

Não.
Por favor, não posso mais!
Eu não suporto! não suporto
a dureza da realidade que
chuta minha porta
todos os dias pela manhã e
atira-me para fora da cama
sem nenhuma delicadeza.
Estou soterrada em escombros
do que seria o meu mundo.
Não posso mais.
Desejo sentar-me na terra
assassinar formigas,
comer flores
e redefinir os meus contornos.
Eu só quero paralizar
todos os relógios
e respirar.
Preciso de tempo, (Ou preciso da ausência do Tempo?)
pois o espelho que está
em minhas mãos
não reflete nada além de
frangalhos.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Lucidez

Um cheiro abafado de
flores esmagadas
acompanha-me
sempre.
E me sufoca juntamente
com essa lucidez
que nunca me abandona.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Humanamente bicho

Sou algo que veio sem
perceber;
Sou medo, sou tinta, sou
massa, sou terra, sou saudade;
Respiro; vento; morro em
mim, ressurjo em você e
vejo, clamo; chamo a
chama que arde no fundo
dos meus olhos, por dentro
da minha garganta.
Corro, grito, choro. Respiro
mais. Me escondo e
mastigo as folhas verdes das árvores altas que mal consigo
alcançar.
Esmago as folhas secas com pés descalços que cheiram tristemente
a rosas murchas.
Me engulo. Me regurgito. Me esparramo no chão e
sou mato, sou flor, sou chuva e sou eu: vários
eus de mim.
Sigo em minha busca fundindo-me ao mundo e observando-o
de longe. Tenho em mim todas as moléculas da terra.
Humanamente bicho,
Sou tudo e sou nada.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Mon coeur il a la couleur de tes yeux

Meu coração tem a
cor dos teus olhos
refletidos numa
poça d'água.

Meus olhos têm
o cheiro do teu
corpo desbravado
pelo meu olhar.

Minhas mãos têm
o gosto dos teus
poros.

(Me liquefaço
e te adentro
através deles)

Minhas narinas ouvem
o timbre do roçar
dos teus cabelos
em minha boca;

e estremeço.

Há tanto de ti
em mim
que emudeço.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ressaca de lágrimas

Ontem bebi demais,
muito além do necessário.
Sorvi mais do que poderia
extrair
de todas as garrafas do meu bairro
pois,
a fonte da qual eu bebia
era fonte inesgotável.
Eram meus olhos que produziam
lágrimas que despencavam
salgando meu rosto,
invadindo meus lábios.
Afogando-me na bebida
quente.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Eu

Fruta podre que cai da árvore,
Vida corroída pelo tempo,
Pó envelhecido de mármore,
Uma folha seca indo no vento.

Belo vaso, rachado, de flores;
Para não despedaçar-se, finge:
Não estão mortas todas as dores
Dos longínquos olhos de esfinge.

Pálido tédio incomunicável
Gélido e plácido como a lua,
Seca o sentimento mais amável;

Minha existência é assim, crua.
Enorme absurdo inexorável,
Esfacelo-me imóvel, nua.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

As horas


Relógios.
Minha vida está
cheia,
repleta,
infestada
de relógios.
Me apresso,
esqueço,
corro sempre
com os relógios.
Para os relógios.
Reloginhos bem
pequenos brotam
dos meus poros;
são de todos os
tipos.
Antigos.
Futuristas.
De pulso,
de corrente,
de parede.
(Até ampulhetas!)
Mas são relógios
que
Tocam, despertam, badalam
na minha cabeça.
Minha vida está cansada de relógios!
Ou desapareço
Ou me transformarei – também eu – em um grande relógio.
Grande, enorme, ambulante;
Cheio de ponteiros e despertando a cada instante...